segunda-feira, 13 de setembro de 2021

Sonho porque veio?

 Sonhei comigo embrionária, dentro de um líquido transparente.

Me vi crescendo, movendo as células nesse mexer aparente.

Estava compenetrada, olhos impressionados nesse embrião.

Ainda não sabia que era eu esse grão.

Sequer vi um nascimento ou estado infantil.

Pulei para uma forma adulta, crescida e olhar de quem partiu.

A forma real que assistia, queria partir o líquido como geleira.

Não via um embrião, queria salvar a mulher na teia.

Seu pescoço estava envolvido pelo cordão umbilical.

 Mulher feita, seios livres mas em aprisionamento fatal.

Olhos suplicantes, mãos em agonia.

Daquele embrião nada mais se via.

Em minhas mãos um furador de gelo e o medo paralisante.

Como salvar essa mulher parida e suplicante?

Acordei sem compreender quem era este ser.

Embrião, mulher, como saber?

Na aparência nada tinha de mim.

Mas em seu olhar sentia em meus ossos o fim.

Desnuda mas enforcada por um cordão.

Inconsciente mensagem que se destina essa ligação.

E no sonho fica esta mulher em desespero.

Vida real de pé pergunta: sonho porque veio?




sábado, 21 de agosto de 2021

Minha religião

 

Minha religião é Gilberto Gil. 

É colocar um som e sonhar. 

Meu lado é do amor e da compaixão. 

É um dia virar semente. 

Meu barato é sentir que sou parte da natureza. 

A loucura deliciosa do Universo em beleza. 

Minha religião é Maria Bethânia. 

É desfrutar de um livro, meditar. 

Meu lado é da poesia e versos. 

É um dia virar poeira dos universos. 

Meu barato é arrepiar-me em rimas. 

Minha religião é Caetano Veloso. 

É sentir o corpo todo Odara. 

Meu lado é qualquer coisa. 

É um dia ir pra Marraquesh. 

Meu barato é ganhar liberdade na amplidão. 

É a onda do mar que bateu em mim. 

Minha religião é Chico Buarque. 

É ficar no corpo como tatuagem.

Meu lado é o do sentimento derramado. 

É me perder em um céu estrelado. 

Meu barato é olhos nos olhos. 

Elogios

 Sempre que quero elogiar alguém penso

Coloco na balança e faço consenso.

Nem todos sabem receber

Uns preferem somente agradecer.


As rimas bobas de elogios me fazem pensar o porque de nunca elogiar quem tenho apreço. Porque sempre coloco mil imposições nesse momento. No exato instante em que as palavras estão na ponta da língua para voar na direção do meu afeto. Xamãs dizem que não devemos nos preocupar com o que acontece com as palavras na cabeça das pessoas. Não nos diz respeito o que elas fazem com elas. 

Então porque eu preocupo-me como destino dos elogios? Com a caixa destino que vai lhe ser oferecida? Ainda se fossem ofensas, mas elogios! Privilégios, bem vestidos e pomposos.

Não quero que tenham a cadeira do esquecimento, de quem coloca lá caso “mais alguém chegue na festa” sabe? Não suporto a banalidade do “obrigado”, a seco, como quem agradece uma porta aberta, uma gentileza qualquer da vida.

Elogio que se tem notícia com vestimenta de agraciamento, merece lugar de atenção, de holofote, de sorriso aberto, de calor no coração. 

Talvez eu pense tanto em seus lugares, lhes conceda tantas honras que jamais os faça na banalidade do dia a dia. Para escaparem pelos lábios, correrem como crianças peraltas e atravessarem o destino de afeto sem sequer fazer um respiro, sumindo das minhas vistas no horizonte.

Penso, repenso e por fim me calo.

Os elogios que lutem para escapar de mim, dos meus dentes travados, dos meus pensamentos carcereiros. Sigo com ouvidos vigilantes, porque os olhos maravilham-se corriqueiramente e querem os elogios para despejar como água corrente. 

Sigamos em rimas bobas, diversão fácil, porque elogios tem muita seriedade e guerra para se tratar em mero texto.

sábado, 5 de junho de 2021

Sentimento fugitivo

 Quero tempo para descobrir o porque do meu sentimento ser fugitivo,

Porque ele está dolorido, sensibilizado, frágil, quebradiço.

Esse tempo precisa ser descansado, vazio.

Como quem olha o infinito e sabe que chegar é o fio.

Quero esse tempo palpável de sentidos e vivo de dor vivente.

Porque tanta massa somente por ser mastigada e respingar quente.

Em minha garganta, tórax e terminar líquida em meu âmago.

Nesse trajeto solitário sinto o tempo em minha mente.

Não sei não precisar desse tempo quase orgão vital.

Tão íntimo e pessoal.

Porque com seus membros torna tudo possível.

E danço em suas carícias incríveis.

Olho em seus olhos profundamente delirantes.

Como quem olha o desejo ardente dos amantes.

Sua persona tem forma quase humana.

E da ponta dos seus dedos a pulsação emana.

Aquele sentimento calado, estilhaçado, multiplicado mas fugitivo.

Quero juntar todo esse sussurro, engolir cada gemido.

Jamais perder suas partes, palavras, olhares e espaços.

Entrelaçar nas minhas entranhas como em um abraço.

Quem sabe assim vc não fuja mais, sossegue feliz.

E eu pare de me sentir por um triz.


quinta-feira, 11 de julho de 2019

Abraça- me Clarice, Fernando, Ferreira e Hilda.

As letras da canção preenchendo as feridas.
Quando acredita-se que o tempo nada fará para curar, só endurecer.
O olhar terno que expõe.
Onde está minhas vestes? Cobre- me, por favor.
Respirando...
Tão doce a esperança e segura do mundo.
Cruel porta aberta e seu poder de assalto.
A minha poesia colo reconfortante.
O frio que me recobre os olhos d'alma.
Os encantos tentam trazer todo viço infantil.
A descrença penetrante das fibras.
Suspiro...
Onde está a surpreendente vida?
Cada folha caída, amarelando igual.
O curso da água corrente e sua mesma direção.
Ano pós ano e suas rugas.
Cicatrizes de descuido e infortuitos.
Abraça- me Clarice, Fernando, Ferreira e Hilda.

sábado, 3 de novembro de 2018

Despedida ao querido

Te escrevo para me despedir,
Poderia lhe chamar de Eduardo, Rafael, ou o que bem lhe aprouvesse. Isso não importaria, pq estou me despedindo e vc saberia ao fim dessas linhas que somente endereço essas palavras a ti.
A quem dei um amor puro e com dificuldade vivi cada bom e mau momento. Resgatei esperança das gavetas trancafiadas do meu coração, achei desejos que julguei nem ter.
Meu querido revolucionário das emoções, vc soube arrancar, desmontar, despertar tantos pedaços desse meu eu conflituoso emocional. Por tantas coisas devo- lhe ser grata e jamais esquecerei cada batida desesperada de meu coração.
Mas nessa trajetória infante, a culpa, amiga de todo amante, fez grandes estragos. Cobrou caro cada entrega intempestuosa de afeto, suspiro ardente de desejo, ingênuo plano de felicidade.
Reflexões de possibilidade minaram o nosso campo que parecia florescer.
O adeus nunca é feito sem pesar, sem deixar as lágrimas secarem, com passos difíceis para um novo horizonte. Mas cada, nunca mais é precedido de uma escolha. Fizeste a sua e eu agora a minha. Alguém soltou a mão em algum momento, decidindo não ter tantos nós. Em silêncio, sem pressagiar que amar dói, mas desistir fere ainda mais.
Não desejo- lhe mais nenhum exame de consciência, isto apenas caberia se em meu coração sobrasse restos de esperança. Ser duro não significa ser altruísta, não lhe empodera de herói de coração alheio. Fechar os olhos não trará paz e sensação de dever cumprido. Mas como sempre fomos pautados no respeito, lhe permito justificar qualquer ato protetivo. Apenas não me interesso por nenhuma forma de falácia a esse respeito.
As mágoas guardarei no fundo da gaveta, mas sem saudosismo, espero.
Algumas histórias não precisam acontecer para serem críveis de força, se sustentam com o próprio sentimento. Mas quando morrem, nunca devem ser reacendidas, quando uma das partes foi ferida.
Amor ferido, rejeitado, meu querido, é ferida febril, como palavras de poema, como melodia favorita, que jamais abandona o peito. 
Finalmente as portas do meu doce afeto foram trancadas, o furacão passou. Suspiro aliviada, pois depois da entrega vem a certeza de que tiveste o meu melhor. 
Não existe amargura em minhas palavras, meu sorriso não sedimentou negatividade, a despedida é liberdade. Abro as asas novamente, calejada, mas sossegada que voar sozinha é o que melhor sei fazer. Certas caminhadas não podem ser feitas a dois, embora estradas se cruzem.
Adeus meu querido Marcus, talvez Alberto, ou quiçá Jorge, não importa seu nome, nossos dedos não seram tocados nesse adeus. Meu coração termina de bater por ti, vejo o horizonte.
Para cada fim, existe um recomeço. Mas para cada decisão não cabe ressentimento e sim força para afugentar as dúvidas. Não olhar para trás,somente seguir.
Sigamos nossas vidas. 

Passou

Que bom que vc passou,
Como uma forte ventania, arrastando galhos e folhas envelhecidas.
Depois de tanta poeira esquecida,
O alento do sol forte.
Em tão pouco tempo mudou,
Sorrisos, lágrimas e pensamentos.
Um amor em tormento.
E mil pedaços vc usou.
Doando e desdobrando meu íntimo,
Agora muito pouco restou.
Sem barrar a força dos acontecimentos,
Vc teve o meu mais puro sentimento.
A credibilidade do pulsar em cada palavra.
Mas a morte espreitava.
O rasgar que pressagiava tanta dor.
E o suplicante amor,
Passou.