quinta-feira, 28 de maio de 2015

Conta

Dando conta de mim tão pesada, tão vasta.
Pastas, gavetas, entrâncias e reentrâncias.
Sou um preenchimento de vivências e sentimentos.
Sentimentos esses que são tão pesados e fortes como orgãos.
Respiram, pronunciam frases, ensaiam passos.
Dar conta desse peso sempre foi assim.
Carregar esse eu estufado, abarrotado.
Sem mãos para dividir, sem calculadoras para somar.
Mas sem nunca zerar a caminhada da vida.
No fim das contas, eu dou conta de me carregar.
Suportar as variações da minha lua e do meu sol.
Alinhando meu planetas, no mapa da minha vida.
Gosto de sentir esse edifício sob as plantas dos pés.
Respirar fundo, suor escorrer para ganhar fôlego.
Superar cada tropeço com ou sem sorriso.
Dar conta é isso.


quarta-feira, 25 de março de 2015

Carta a Elizabeth

Minha alma, Elizabeth, 
Partida, remendada de tantas vezes dilacerada,
Sente-se desmilinguir-se.
Perdi as forças de forma a sentir na carne a derrota.
A falta de viço.
Como uma lâmpada que desmaia de todo seu tempo de vida gasto.
Desculpe querida, eu tentei.
Minha tentativa árdua em manter meus pés fincados nesta terra inóspita foi persistente
Mas meu coração já morreu.
Foi um falecimento á mingua,
Difícil de se perceber,
Mas a cada pouco suspiro via-se a clara luta dele.
Soprei vida forte em seus ouvidos,
Cuspi realidade em sua cara,
Afim de assim chocar-lo,
Mas falhei miseravelmente.
Minha linda Elizabeth,
Pensar em ternos momentos marejam meus olhos endurecidos.
Onde foi parar aquela parte tão doce de minh'alma?
Será que o fel da morte pisoteou-a?
Não houve tempo de socorro.
A morte hoje já não parece- me tão fria.
A pintura grotesca que tanto dizem não me cega mais,
Já alcançou-me o coração.
O medo agora é de viver, de continuar esta inútil caminhada.
Qual conselho me diria minha pequena?
Sinto falta do aperto suave de seus dedos.
Aquele olhar piedoso diante das minhas angústias.
Preciso da sua voz reconfortante sobre a minha dor pugente.
Sentir menos dormência sobre o lodo sentimental que me restou.
Que dirias minha Querida?

sábado, 25 de outubro de 2014

Cicatriz

A cicatriz ostentada não diminui a saudade.
Ela vem com sorrisos, mas tb com maldade.
Malas e bagagens pesadas.
Lágrimas difíceis de serem carregadas.
Ar faltante do meu suspiro.
Mãos calejadas, pé dormentes.
Caminhar sem vc seca minhas sementes.
Rachaduras  em tudo que foi fértil um dia.
No colo, no lombo a dor que jamais partia.
Acolhendo calendários apressados.
Dentro de mim, vc em pequenos passados.
Afagos nas marcas feitas.
Seguindo em estradas estreitas.

No tempo.

Houve um tempo em que vc foi a luz da minha estrela.
E em sua existência, bastava tê-la.
Um tempo onde sua força girava meu planeta.
Meus pensamentos podiam rir quando dessem na veneta.
A época em que seus lábios de órbita me tiravam.
Meus pés saíam de onde estavam.
Houve esse tempo de encontro e sintonia.
Um brilho ofuscante de sintonia.
Melodia  de almas e corpos.
Agora apenas tempos mortos.

quarta-feira, 30 de julho de 2014

Carta.

Helena,

Sei que rasguei o tempo, te puni com o meu afastamento mas necessitava enxugar todo o amor que não deixava de jorrar.
Tentei arranjar maneiras de secar as feridas, de esquecer velhos costumes, mas não consegui apagar vc.
Ali latente, doída mais que qualquer chaga!!!
Quando tentei lhe causar dor, era como se pudesse ser Semi Deus e lhe transferir meus cortes. Bobagem, vc tem os seus, tão fortes quanto os meus acredito.
Não estou reativando vínculos, laços, sequer injetando vida na morte; apenas queria lhe escrever, enviar minhas palavras, nem doces, mas verdadeiras.
Acredito em seus olhos piedosos, suas mãos cheias de força e sua boca vívida. Sempre acreditei, me embalei desse conjunto, me perdi, esquecendo- me.
Sem punições, sim, não estou armada de espinhos e facas. O tempo tratou de envelhecer minha dor, de transformar minha garra em medo. Meu coração vive fraco, acuado, luz fraca, pulsação devagar. Quase enfermo.
Se não houver respostas tuas vou compreender, afinal direitos tem sua vida e vc sempre deu valor ao tempo, lembro bem.
Mas se quiser responder- me meu batimento vai acelerar, sempre me surtiu esse efeito tudo em vc. 
Lembro- me o quanto me julgava exagerada, do sentimento ás palavras, e eu sempre lhe achei tolida, não menos entregue, mas contida talvez em demonstrações.
Salvo as cartas. Não posso ser injusta com tuas letras. Guardo-as todas! Na alma, na carne, dentro dos olhos.
Não convém aqui minhas " cotidianices", tolices como: " vida vai bem,seguindo"..
Vc me conhece, acho que vc é das poucas pessoas que me reconheceria a quilômetros, numa multidão! 
Talvez isso tenha afetado-me tanto!! Essa identificação absurda, esse encaixe.
Mas também não estou pregando minhas justificativas, estou apenas tonando meu vinho e deixando meus dedos fluírem. Sinto falta disso com vc.
Das outras coisas também, se quer saber, se cabe dizer.
Nunca houve dificuldade em escrever-lhe, meus dedos conhecem esse caminho. Houve acovardamento do meu coração. Somente ele cabe tamanha culpa e punição.
E o seu silêncio todo esse tempo foi uma punição bem dura minha cara. Mas absolutamente compreensível.
Não vou terminar com fins clichês, despedidas forçadas e requerentes de resposta. Deixo-a na tua liberdade de sempre.

Até.

Não quero deixar vc.

Não quero deixar vc.
Desmembrar cada parte atemporal.
Desatarrachar cada gravura de momento vivido.
Sufocar todos suspiros e gemidos.
Atropelar sem volta seu começo em mim.
Seus pés foram, mas seus olhos ficaram.
Assim como suas músicas e seu cheiro.
Gravadas, tatuadas permanentemente.
Portanto não quero deixar vc.
Preciso desocupar outros espaços.
Mas o seu lugar é cativo, póstumo.
Deixar vc seria soterrar uma flor.
Cortar um dedo.
Danificar permanentemente um estado sentimental.
Veja bem, amor é mais que isso.
Eu falo do estado cru, bruto da sua presença.
Não se deixa nada disso simplesmente " ir"
Eu quero que vc fique.
Manche cada dia, pele e pensamento.
Sem descansar muito mesmo imaginar em desocupar.
Misture-se ao meu respirar diário.
Atando sua mão a minha no invisível.
Adicionando açúcar a minha salinidade.
Pisando fortemente na minha teimosa razão.
Não, deixar, não.
Adicionar. 

quinta-feira, 22 de maio de 2014

Morte a sensibilidade

Porque esse respingo de sensibilidade não morre?
Teima em mostrar-se como criança travessa.
Olha-me com tanta açúcar.
Me estende a mão.
Ensopa meus olhos.
Porque não desiste de mim de uma vez?
Luta para salvar- me com empenho.
Murra as paredes de pedra.
Faz sangrar os poros.
Respira com dificuldade em meus ouvidos.
Porque essa maldita delicadeza não dá adeus?
Deixa-me a mingua da vida simplesmente.
Sem nascer as agudices dos espinhos.
Nem mascarar sob sorrisos os cortes.
Porque mesmo espancada resiste?
E acaricia-me a todo amor.
O mais profundo toque de ternura.
Acolhendo toda a minha bagunça.
Silenciando todos os meus gritos.
Porque não atribui razão ao fim tão certo?
Apagando a luz e esquecendo todo o resto.