terça-feira, 11 de agosto de 2026

Esquecer

 Esquecer uma palavra, uma conversa, um momento.

Escapa-me aquilo que queria te dizer, porque somente a mim mesma cabia.

O momento relembrado tantas vezes, passa a ser quase novo por cada detalhe perdido ou acrescentado.

A conversa desliga o som da voz e força-se para esticar o braço e apanhar de jeito o som.

Ando desleixada, cansada, deprimida ou terceirizando meus pensamentos a outros pedaços de mim.

Eles andam cabisbaixos, mal nutridos, mal humorados, capengas.

Como as folhas da minha jibóia que pouco a pouco não aceitam a luz (baixa, morna) e amarelam depois de esbranquiçar.

As palavras estão escondidas, negando-me o acesso como se eu as ofendesse, aceitando meu próprio vazio.

A conversa que tento agarrar pelos dedos, desliza sem pudor porque o tempo já a seduziu e rendida não quer minha companhia velha e desgastada.

O momento ainda flerta comigo, generoso, faceiro, joga o jogo do amor fast food.

Aceito.

Meu vazio não chega a ser nostálgico de presença mas de pele, cheiros, olhares.

Sou eficiente em desencontros, depois de exibir o transparente pensamento.

Costumo jogá-lo aos leões, sem preparo mesmo, nu, visceral, sem máscaras, somente ele como é.

Vamos deixar tudo na base do:” deixa rolar?”

Eles se embolam tanto no outro que no fim saem moídos, como crianças que apanharam na rua.

Estou do lado das palavras, sempre defendendo-as como se o silêncio fosse o primo mau que pratica bullying.

Não é possível abandoná-las em um momento frio a mercê do vento gelado da indiferença.

Venham aqui, tomem um café comigo, mostrem seus tormentos.

Não é questão de terapia, mas gosto de dizer a elas que podem ir mas que voltem pra mim que as aceito em suas magnitudes ou insignificâncias.

Esqueci que o vazio rouba o momento e fica a me olhar como o cursor do computador piscando, a espera.

O vazio é pior que meu livro de poesias parado na estante, empoeirado, mudo, aceitando tudo.

Se a presença com a bolsa das palavras fica em carne viva que venha a noite acalentadora.

O sol já brilhou presentemente corajoso e imponente e eu esqueci completamente.



Nenhum comentário: