domingo, 30 de agosto de 2026

Muralha do tempo.

 Saudade de quando vc pintava as unhas dos meus pés de vermelho.

As carícias apaixonadas nas pernas e o olhar malicioso.

Meu peito dói de ver a trilha sonora feita para cada momento.

Um amor Bethania esses fragmentos.

Choro nesse terreno árido para refazer as nascentes do meu coração. 

Vc regou meu desejo e secou o rio da paixão.

Saudade da comida de sábado, o cheiro da sua colônia junto a comida e o vinil chiando.

A risada na história contada, um gole no vinho e o amor se derramando.

Meu peito tenta costurar as rachaduras que a sua doçura fez virar fel.

Um amor clichê esses fragmentos.

Choro de cara no vento para molhar o terreno rachado e frio que virou meu coração.

Vc jogou sal na minha água e de mar sobrou pó.

Saudade da voz ao pé do ouvido, a língua ávida e o som do coração batucando.

Meu peito só bate vida, as gavetas estão vazias de você.

Teus pedaços piquei, nem cabem em fragmentos.

Choro tempo perdido e sorrio o achado, suas contradições, meu lamento.

Marcas cicatrizadas, um amor e só.

Encontro em mim todas as partes perdidas antes de vc dizer te amo.

Acho seus dedos, corpo, boca e clamo.

A linha fina que enverga e sobrevive a ventania do tempo.

Não mexo, não respiro, fecho os olhos e sinto a muralha do tempo.

Quantos fragmentos, momentos, sentimentos irão sobrar?





terça-feira, 11 de agosto de 2026

Esquecer

 Esquecer uma palavra, uma conversa, um momento.

Escapa-me aquilo que queria te dizer, porque somente a mim mesma cabia.

O momento relembrado tantas vezes, passa a ser quase novo por cada detalhe perdido ou acrescentado.

A conversa desliga o som da voz e força-se para esticar o braço e apanhar de jeito o som.

Ando desleixada, cansada, deprimida ou terceirizando meus pensamentos a outros pedaços de mim.

Eles andam cabisbaixos, mal nutridos, mal humorados, capengas.

Como as folhas da minha jibóia que pouco a pouco não aceitam a luz (baixa, morna) e amarelam depois de esbranquiçar.

As palavras estão escondidas, negando-me o acesso como se eu as ofendesse, aceitando meu próprio vazio.

A conversa que tento agarrar pelos dedos, desliza sem pudor porque o tempo já a seduziu e rendida não quer minha companhia velha e desgastada.

O momento ainda flerta comigo, generoso, faceiro, joga o jogo do amor fast food.

Aceito.

Meu vazio não chega a ser nostálgico de presença mas de pele, cheiros, olhares.

Sou eficiente em desencontros, depois de exibir o transparente pensamento.

Costumo jogá-lo aos leões, sem preparo mesmo, nu, visceral, sem máscaras, somente ele como é.

Vamos deixar tudo na base do:” deixa rolar?”

Eles se embolam tanto no outro que no fim saem moídos, como crianças que apanharam na rua.

Estou do lado das palavras, sempre defendendo-as como se o silêncio fosse o primo mau que pratica bullying.

Não é possível abandoná-las em um momento frio a mercê do vento gelado da indiferença.

Venham aqui, tomem um café comigo, mostrem seus tormentos.

Não é questão de terapia, mas gosto de dizer a elas que podem ir mas que voltem pra mim que as aceito em suas magnitudes ou insignificâncias.

Esqueci que o vazio rouba o momento e fica a me olhar como o cursor do computador piscando, a espera.

O vazio é pior que meu livro de poesias parado na estante, empoeirado, mudo, aceitando tudo.

Se a presença com a bolsa das palavras fica em carne viva que venha a noite acalentadora.

O sol já brilhou presentemente corajoso e imponente e eu esqueci completamente.



domingo, 2 de agosto de 2026

Minha poesia.

 A poesia não seca, inunda alma, dedos, olhos, mente.

Vc tenta matá-la para me punir, para me fazer sangrar.

Mas como o dia nasce, poesia vive, ali latente como dor de dente.

Ás vezes punitiva, oras acalentadora, depende da leitura em mente.

Ou contaminação dos sentimentos doentes.

Minha poesia não morre, apenas descansa, repousa.

Como passarinho que depois de passeio, pousa.

Minha poesia não se permite virar pó, mesmo se eu me for.

Seu poder transformador, seu melhor adorno, transpassa toda dor.

Abandono meu corpo físico mas seu etéreo sobrevive, voando, permanecendo em vento livre.

Vc quer deixar de vê-la como se pudesse assim me apagar.

Como eu quero arrancar todas lembranças de vc como se pudesse assim desfazer vc.

As agulhas que me fazem ver que vc existiu, costuram feridas, mas costuraram juras de amor.

Minha poesia pintou esse bordado em várias formações.

O que antes eram corações em ebulição, hoje pontos sem junção.

Minha poesia não quer saber seu nome, endereço, estado civil.

Ela quer saber do seu peito, sua coragem, sua sensibilidade, aquilo do que vc é feito.

Minha poesia expõe suas fraturas, seu sangue, meu sal, as pedras do castelo que nunca existiu.

Na palma das mãos recordações do que somente ruiu.

A poesia não bota a perder, muito menos põe amor a desmerecer.

Minha poesia pode ser brava, doce, libidinosa, cruel, sensível, pessoal, genérica, anárquica mas sempre viva.

Aquela que me abraça forte,  salva do caos e explosão.

Me derrama e se derrama, penetra em todos os poros, acordando todos os cantos.

Como prece fervorosa a todas divindades e santos.

Minha poesia não supõe, ela se sobrepõe as teorias e planos de ilusão amorosa. 

A verdade que não se pode mentir ou fugir sem demora.

O véu que cai arrepiando, desnudando vc e eu.

Minha poesia sempre me pertenceu.