quarta-feira, 30 de julho de 2014

Não quero deixar vc.

Não quero deixar vc.
Desmembrar cada parte atemporal.
Desatarrachar cada gravura de momento vivido.
Sufocar todos suspiros e gemidos.
Atropelar sem volta seu começo em mim.
Seus pés foram, mas seus olhos ficaram.
Assim como suas músicas e seu cheiro.
Gravadas, tatuadas permanentemente.
Portanto não quero deixar vc.
Preciso desocupar outros espaços.
Mas o seu lugar é cativo, póstumo.
Deixar vc seria soterrar uma flor.
Cortar um dedo.
Danificar permanentemente um estado sentimental.
Veja bem, amor é mais que isso.
Eu falo do estado cru, bruto da sua presença.
Não se deixa nada disso simplesmente " ir"
Eu quero que vc fique.
Manche cada dia, pele e pensamento.
Sem descansar muito mesmo imaginar em desocupar.
Misture-se ao meu respirar diário.
Atando sua mão a minha no invisível.
Adicionando açúcar a minha salinidade.
Pisando fortemente na minha teimosa razão.
Não, deixar, não.
Adicionar. 

quinta-feira, 22 de maio de 2014

Morte a sensibilidade

Porque esse respingo de sensibilidade não morre?
Teima em mostrar-se como criança travessa.
Olha-me com tanta açúcar.
Me estende a mão.
Ensopa meus olhos.
Porque não desiste de mim de uma vez?
Luta para salvar- me com empenho.
Murra as paredes de pedra.
Faz sangrar os poros.
Respira com dificuldade em meus ouvidos.
Porque essa maldita delicadeza não dá adeus?
Deixa-me a mingua da vida simplesmente.
Sem nascer as agudices dos espinhos.
Nem mascarar sob sorrisos os cortes.
Porque mesmo espancada resiste?
E acaricia-me a todo amor.
O mais profundo toque de ternura.
Acolhendo toda a minha bagunça.
Silenciando todos os meus gritos.
Porque não atribui razão ao fim tão certo?
Apagando a luz e esquecendo todo o resto.

Final

Me despeço 
Do último pedaço vivo.
Não adianta soprar.
Vida esvaiu-se.
Excesso de cortes.
Ilimitados choques.
Me despeço.
Agora sem traumas.
Dores normais.
Suspiros mortais.
Me despeço.
Consciente.
Só tenho minha mente.
Dedos a sombrear.
Esvaiu-se.
Rarefez.

sexta-feira, 4 de abril de 2014

Morte

Extirpar o desejo afiado.
Separará-lo das veias.
Não contaminar-se.
Secar o sangue que teima em brotar.
Segurar os restos pulsantes.
Enterrar-lhe as unhas fundo.
Equilibrar força.
Derramar as lágrimas da razão.
Acalmar-lhe em expressão apática.
Olhar seus suspiros desesperados.
Sentir seu cheiro.
Não contaminar-se.
Aplicar-lhe eutanásia.
Render-lhe piedade.
Esperar.

Dando conta

Passei por você.
Agora sobram os restos.
Raspas da combustão.
Daquilo tudo no meu coração.
E como se dar conta?
Causas, brilho, mortes.
Pulsar, dor, vazio.
Passei pra valer.
Em vc, por vc, dentro de vc!
Como asas de um beija flor.
Voar,doar, amar.
Daquilo que eu sou.
(...)
Pó restou.
E como se dar conta?
Soprar o pó.
Deixar o vento varrer.
Embalar pra valer.
Tudo de vc.
Em mim, por mim, dentro de mim!
(...)
Ser grata.
Lições, lembranças, Amor.
Daquilo que em mim ficou.


R.B.

Basta um descuido e outro corte.
Esse meu pobre coração.
Tantas mortes.
Olhos em oração.
(...)
Basta abrir um sorriso.
Esse meu descuidado coração.
Calores preciso.
Lábios com emoção.
(...)

Palavras

Voltei a escrever.
Voltei a realidade poética.
A derramar minha doçura e meu fel.
Mesma medida.
Não sei o quanto cabe em mim.
Se pertenço a este ou aquele lugar.
Sei que sou das palavras.
E elas me possuem com fervor.
Estou despida para elas.
Cicatrizes expostas.
Sorrisos e lágrimas.
Simples e torturada.
Somos pertencentes.
Pedaços cheios de grunhidos.
Olhos silenciosos.
Não sei quem é esse pedaço.
De onde parte ou onde invade.
Voltei a manchar o branco.
Voltei a tal mundo.
A deitar minha agonia e meu amor.
Sem medida.
Não sei o quanto conter em mim.
Se adequação socorre.
Sei que palavras não morrem.
Mesmo quando tudo fenece.
No pó restará elas.
No céu pedaço delas.
Aparentes.
Complexas.