sábado, 24 de dezembro de 2022

Boas Festas

 Eu queria começar dizendo que adorei te conhecer mesmo antes de vc dizer oi. 

Neguei isso mesmo com o coração disparando nos ouvidos. 

Meu pensamento rodopia e bate na porta do juízo dizendo: diga apenas que deseja boas festas, simples, formal mas nem tanto, não dê margens.

Mas são nas margens que eu navego, aprofundo e toco o chão do meu fundo tão complexo. 

Dou tantas voltas nessa piscina atlética quanto a velocidade do meu pensamento geminiano.

Queria dizer que a simples palavra “conexão” puxou o fio do novelo. E embora eu tente cortar, enrolar, jogar fora, permanece voando a ponta sob os meus olhos, pq os dedos se negaram a tocar.

Vou dizer alguma coisa pra vc? Provavelmente não. Sempre que eu sou eu o resultado é a ruína.

Eu queria dizer que “alguma coisa” também se perde e a vida é feita de escolhas, mas soaria tão óbvio e clichê quanto a tal conexão.

Não sei não ser eu, ainda estou tentando não me jogar, mesmo com os dois pés a beira da borda.

Colocar aquela frase que eu adoro e vem fazendo cada vez menos sentido, se tem vontade, faça; na lata do lixo.

Era pra te dizer que não estou esperando nenhuma linha de volta porque o novelo ainda está sob os meus dedos imaginários e a outra ponta sabe Deus se vc segurou. 

Não é disputa, mas o movimento é importante.

Eu vou terminar não dizendo nada a vc. E nada tem a ver com merecimento.

Quando eu pensei em escrever, era pra ser leve, despretensioso…mas pode carregar um pedaço meu que eu não estou disposta a dar. Ainda.

Quando penso na palavra coragem, hj, penso em mim, respirando fundo, olhando nos olhos, sem as margens, sem os pés na borda, somente ali, existindo, sem preocupações com o tempo, as subjeções. 

Por isso o eu atual sequer vai dizer boas festas. Com todas as margens saltando no meu cérebro, os pés loucos na borda.

Sinto muito. 

Boas Festas não ditas.


quarta-feira, 27 de abril de 2022

Inexistência

Como dança de balé suspenso, sinto você orbitar em mim.

Na embolada do tempo você sussurra em meus ouvidos: 

- Estou cada vez mais perto. Tão perto.

Sinto seu calor, sua presença.

A energia se dissipa e duvido de tal crença.

Brado sua inexistência.

Que faço eu com tuas sensações?

A presença forte que me atravessa as emoções.

Debato-me entre chegue e parta.

Aquilo que me consome, afaga sem nome, quase me mata.

Puro desejo, instinto que pulsa, treme e logo acalma.

Como o carinho da sua mão na minha aflita alma.

Meu olhar busca desesperado.

O coração sussurra quase envergonhado:

- Te quero tanto entrelaçado.

Sinto sua risada, seu olhar.

A energia queima e a boca chega para silenciar.

Pisco confusa, meu cérebro está a pifar.

Teu gosto a um milésimo.

Brado sua inexistência.





Companheiro papel

 Antes de te colocar nesse papel, pensei mil vezes em como te personificar.

Como expor as minúcias do que vc é, representa e causa em todo o meu manifestar.

Transformar essa grande massa em corpo, figura física sem expectativas e decepções.

Se eu mesma vivo a voar nas minhas delirantes emoções.

Quando penso em transformar-te em alguém, fica mais difícil que transcrever o que sinto.

Loucura pensar que o sentimento é menor que a tua carne.

E que me adianta pensar nas mais pequenas idiossincrasias vale? 

No fim das contas a imensidão de você me invade, rouba e arde.

Impossível te armazenar em espaços.

Nem mesmo a idealização de um ato cortariam nossos laços.

Antes de você tudo era simples e rabiscado em normalidades.

Papel satisfazia os arroubos da idade.

Quilômetros de megabyte vieram surpreender células, músculos e razão insistia em gritar.

Não cabe, não tem espaço, nem idade, se limite em pensar!

Portanto querido papel como te pintar de você?

Dedos trêmulos tentam engrandecer, fechando os porquês.

A imaginação ri descontroladamente e zombeteiramente.

Que audácia dessa menina indolente!

Antes de te colocar no papel tento reunir todas as páginas como estrelas no céu.

Só consigo sentir meu companheiro papel.




segunda-feira, 13 de setembro de 2021

Sonho porque veio?

 Sonhei comigo embrionária, dentro de um líquido transparente.

Me vi crescendo, movendo as células nesse mexer aparente.

Estava compenetrada, olhos impressionados nesse embrião.

Ainda não sabia que era eu esse grão.

Sequer vi um nascimento ou estado infantil.

Pulei para uma forma adulta, crescida e olhar de quem partiu.

A forma real que assistia, queria partir o líquido como geleira.

Não via um embrião, queria salvar a mulher na teia.

Seu pescoço estava envolvido pelo cordão umbilical.

 Mulher feita, seios livres mas em aprisionamento fatal.

Olhos suplicantes, mãos em agonia.

Daquele embrião nada mais se via.

Em minhas mãos um furador de gelo e o medo paralisante.

Como salvar essa mulher parida e suplicante?

Acordei sem compreender quem era este ser.

Embrião, mulher, como saber?

Na aparência nada tinha de mim.

Mas em seu olhar sentia em meus ossos o fim.

Desnuda mas enforcada por um cordão.

Inconsciente mensagem que se destina essa ligação.

E no sonho fica esta mulher em desespero.

Vida real de pé pergunta: sonho porque veio?




sábado, 21 de agosto de 2021

Minha religião

 

Minha religião é Gilberto Gil. 

É colocar um som e sonhar. 

Meu lado é do amor e da compaixão. 

É um dia virar semente. 

Meu barato é sentir que sou parte da natureza. 

A loucura deliciosa do Universo em beleza. 

Minha religião é Maria Bethânia. 

É desfrutar de um livro, meditar. 

Meu lado é da poesia e versos. 

É um dia virar poeira dos universos. 

Meu barato é arrepiar-me em rimas. 

Minha religião é Caetano Veloso. 

É sentir o corpo todo Odara. 

Meu lado é qualquer coisa. 

É um dia ir pra Marraquesh. 

Meu barato é ganhar liberdade na amplidão. 

É a onda do mar que bateu em mim. 

Minha religião é Chico Buarque. 

É ficar no corpo como tatuagem.

Meu lado é o do sentimento derramado. 

É me perder em um céu estrelado. 

Meu barato é olhos nos olhos. 

Elogios

 Sempre que quero elogiar alguém penso

Coloco na balança e faço consenso.

Nem todos sabem receber

Uns preferem somente agradecer.


As rimas bobas de elogios me fazem pensar o porque de nunca elogiar quem tenho apreço. Porque sempre coloco mil imposições nesse momento. No exato instante em que as palavras estão na ponta da língua para voar na direção do meu afeto. Xamãs dizem que não devemos nos preocupar com o que acontece com as palavras na cabeça das pessoas. Não nos diz respeito o que elas fazem com elas. 

Então porque eu preocupo-me como destino dos elogios? Com a caixa destino que vai lhe ser oferecida? Ainda se fossem ofensas, mas elogios! Privilégios, bem vestidos e pomposos.

Não quero que tenham a cadeira do esquecimento, de quem coloca lá caso “mais alguém chegue na festa” sabe? Não suporto a banalidade do “obrigado”, a seco, como quem agradece uma porta aberta, uma gentileza qualquer da vida.

Elogio que se tem notícia com vestimenta de agraciamento, merece lugar de atenção, de holofote, de sorriso aberto, de calor no coração. 

Talvez eu pense tanto em seus lugares, lhes conceda tantas honras que jamais os faça na banalidade do dia a dia. Para escaparem pelos lábios, correrem como crianças peraltas e atravessarem o destino de afeto sem sequer fazer um respiro, sumindo das minhas vistas no horizonte.

Penso, repenso e por fim me calo.

Os elogios que lutem para escapar de mim, dos meus dentes travados, dos meus pensamentos carcereiros. Sigo com ouvidos vigilantes, porque os olhos maravilham-se corriqueiramente e querem os elogios para despejar como água corrente. 

Sigamos em rimas bobas, diversão fácil, porque elogios tem muita seriedade e guerra para se tratar em mero texto.

sábado, 5 de junho de 2021

Sentimento fugitivo

 Quero tempo para descobrir o porque do meu sentimento ser fugitivo,

Porque ele está dolorido, sensibilizado, frágil, quebradiço.

Esse tempo precisa ser descansado, vazio.

Como quem olha o infinito e sabe que chegar é o fio.

Quero esse tempo palpável de sentidos e vivo de dor vivente.

Porque tanta massa somente por ser mastigada e respingar quente.

Em minha garganta, tórax e terminar líquida em meu âmago.

Nesse trajeto solitário sinto o tempo em minha mente.

Não sei não precisar desse tempo quase orgão vital.

Tão íntimo e pessoal.

Porque com seus membros torna tudo possível.

E danço em suas carícias incríveis.

Olho em seus olhos profundamente delirantes.

Como quem olha o desejo ardente dos amantes.

Sua persona tem forma quase humana.

E da ponta dos seus dedos a pulsação emana.

Aquele sentimento calado, estilhaçado, multiplicado mas fugitivo.

Quero juntar todo esse sussurro, engolir cada gemido.

Jamais perder suas partes, palavras, olhares e espaços.

Entrelaçar nas minhas entranhas como em um abraço.

Quem sabe assim vc não fuja mais, sossegue feliz.

E eu pare de me sentir por um triz.